Diretor da HRW pede aliança de 'potências médias' diante de EUA, Rússia e China
Diante de "superpotências agressivas e contrárias aos direitos humanos", principalmente sob o impulso do presidente americano Donald Trump, o novo diretor da Human Rights Watch (HRW) pede uma aliança de "potências médias" ao redor de valores democráticos.
"Com o primeiro ano (do segundo mandato) de Trump no poder, a história acelera no sentido errado. Todas as conquistas, os progressos obtidos com muito esforço nas últimas décadas estão ameaçados hoje", alerta Philippe Bolopion em uma entrevista à AFP, por ocasião da publicação do relatório anual da organização sobre violações de direitos humanos.
"O movimento dos direitos humanos é atacado pela administração Trump, mas também pela Rússia e pela China", que, apesar de suas rivalidades estratégicas, seriam "quase aliados de conveniência (para) minar, corroer, enfraquecer um sistema de direitos que limita seus poderes", afirma o diretor da ONG.
A HRW enfatiza em seu relatório a guinada dos Estados Unidos "rumo ao autoritarismo".
"A designação de bodes expiatórios com base em raça ou etnia pela administração, a mobilização doméstica da Guarda Nacional, assim como os atos repetidos de represália contra inimigos políticos percebidos e ex-funcionários agora críticos, e a tentativa de estender poderes coercitivos do Poder Executivo para neutralizar os equilíbrios democráticos, alimentam uma virada determinada rumo ao autoritarismo nos Estados Unidos", afirma o documento.
Bolopion, ex-jornalista que iniciou a carreira no Kosovo, cobriu vários conflitos e passou 13 anos na HRW antes de assumir a direção da ONG no final de 2025.
"Neste novo mundo de superpotências agressivas e contrárias aos direitos humanos, quem vai retomar o estandarte?", questiona. A ONU está "completamente na defensiva, enfraquecida, incapaz de responder à urgência do momento", completa.
"As crises se multiplicam, são mais intensas e duram mais tempo. Hoje, nossa equipe de emergência trabalha na Venezuela, Irã, Gaza, Darfur, Ucrânia (...). Estamos inclusive mobilizando nossa equipe em Minneapolis, Estados Unidos, o que é totalmente novo", explica o diretor da HRW, em referência às detenções em larga escala de imigrantes nas últimas semanas e aos dois americanos que foram mortos na cidade em ações das forças de segurança.
- Aliança estratégica -
As organizações da sociedade civil também observaram uma redução considerável de sua margem de manobra nos últimos anos.
A HRW foi obrigada a fechar seus escritórios em Hong Kong, Moscou e Egito, enquanto seu "diretor para Israel-Palestina foi expulso de Jerusalém", recorda o diretor executivo.
"Nós (as ONGs) estamos muito preocupados com nossa capacidade de continuar operando de maneira completamente livre nos Estados Unidos. É totalmente novo ter que se preocupar com possíveis medidas de represália do governo americano, mas a administração Trump é abertamente hostil a todas as vozes críticas", acrescenta.
"Já atacou a fundação (do bilionário e filantropo George) Soros e ameaçou opositores políticos, o que significa que nossa presença nos Estados Unidos já não é segura", destaca.
Diante dos grandes desafios e, às vezes, da impossibilidade de deslocar equipes, "nos adaptamos e utilizamos especialmente a tecnologia — inteligência artificial, drones, imagens de satélite — para continuar investigando" e, assim, documentar as violações dos direitos humanos, explica.
Para a HRW, a resposta deve vir de "uma nova aliança, uma aliança estratégica de potências médias, unidas ao redor de um núcleo comum de valores democráticos e de respeito ao direito internacional", como Canadá, os países da União Europeia, Reino Unido, Japão, África do Sul, Brasil, Coreia do Sul ou Austrália.
De maneira pragmática, Bolopion também menciona a Índia, que certamente "experimentou um retrocesso democrático muito importante" sob o governo do primeiro-ministro Narendra Modi, mas que "poderia ser tentada a melhorar sua situação na área de direitos humanos para fazer parte de uma aliança que lhe ofereceria proteção diante das tarifas da administração Trump, assim como diante das ameaças da China ou da Rússia".
Uma aliança desse tipo "pode ter peso e proporcionar certa segurança a seus membros", com acordos comerciais e de defesa privilegiados, ou permitir "votar como bloco nos organismos da ONU, em particular no Conselho de Segurança", argumenta.
A.Amaya--ESF