Brasileiros votam para definir o presidente entre Lula e Bolsonaro
Os brasileiros votam neste domingo (25) para decidir se dão mais quatro anos de mandato ao presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou se apostam em um retorno da direita com o senador Flávio Bolsonaro (PL), após uma campanha que voltou a expor uma forte polarização.
Esta é a batalha eleitoral derradeira para Lula, que completa 81 anos na próxima semana e espera conseguir uma virada após terminar em segundo lugar no primeiro turno, atrás do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
As pesquisas eleitorais divulgadas no sábado pelos institutos Datafolha e Quest mostraram um empate técnico, mas com uma leve vantagem para o senador.
O clima é chuvoso em boa parte do país, o que pode afetar a abstenção, que foi de 21% no primeiro turno.
O segundo turno deste domingo determinará se o Brasil continuará sendo uma das poucas nações de esquerda da América Latina ou se se juntará à guinada regional à direita estimulada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Lula, que busca um quarto mandato não consecutivo, apresentou-se como uma barreira contra a interferência dos Estados Unidos e um protetor da democracia.
Flávio Bolsonaro, de 45 anos, promete combater a criminalidade com mais rigor, reduzir os gastos públicos e aliviar o custo de vida.
"Estamos num buraco, a situação está feia, o povo mal consegue comer, comprar carne então nem pensar", disse à AFP Tereza Cristina Ramos, uma aposentada de 68 anos, que caminhava com o apoio de uma bengala, antes de votar no Rio de Janeiro.
Flávio Bolsonaro apresentou-se como mais moderado do que seu pai, conhecido por seus discursos inflamados, que está cumprindo uma pena de 27 anos em regime de prisão domiciliar por uma tentativa de golpe de Estado após sua derrota nas eleições de 2022.
"O Brasil não aguenta mais quatro anos do jeito que está, a vida de todo mundo piorou", disse o candidato depois de votar na Escola Municipal Barão Homem de Mello, em Vila Isabel, Rio de Janeiro.
"Chegou a hora da mudança de verdade", afirmou.
Como demonstração da intensa polarização, lulistas e bolsonaristas trocaram gritos e cantos a plenos pulmões enquanto o senador votava.
Simpatizantes de Lula entoaram na rua o clássico "Olê olê olê olá, Lula", vestidos de vermelho e fazendo um "L" com os dedos. A poucos metros, um grupo bolsonarista retrucou: "Lula, ladrão, seu lugar é na prisão".
- "Mais tempo" -
Após a derrota no primeiro turno, a esquerda entrou em ação com grandes manifestações que proclamavam "Bolsonaro Nunca Mais".
Os manifestantes relembraram a condução caótica da pandemia de covid-19 - que deixou 700.000 mortos -, a devastação da floresta amazônica e os cortes nos programas públicos durante o mandato do político de extrema direita.
"O Brasil precisa de mais tempo do Lula, principalmente porque o Brasil está prestes a cair nas garras do fascismo", disse à AFP Maria Fernanda Elisbao, de 21 anos, assistente em uma editora, que votou na mesma escola em que o esquerdista votará em São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo.
As seções eleitorais devem fechar às 17h00 e o resultado será conhecido poucas horas depois.
Lula, reverenciado pelos programas de assistência social que tiraram milhões de pessoas da pobreza, protagonizou um retorno dramático ao poder nas eleições de 2022, após ser preso por corrupção por mais de 18 meses em decorrência das investigações da Operação Lava Jato.
As acusações, anuladas por questões processuais, continuaram a assombrá-lo.
Em seu terceiro mandato, ele supervisionou uma queda da inflação e do desemprego e tirou milhões de pessoas da fome, mas os eleitores reclamam do alto custo de vida e estão cansados da criminalidade.
- O papel da Meta -
Para o segundo turno, Lula reformulou sua estratégia nas redes sociais, recorrendo a vídeos gravados em estilo selfie e até comprando seu primeiro celular.
Também contou com uma mobilização digital sem precedentes de sua militância, que criou um canal no WhatsApp, o "Exército do Lula", que conta com mais de 10,8 milhões de seguidores.
Uma intensa batalha nas redes sociais envolveu a Meta, empresa controladora do WhatsApp, do Facebook e do Instagram, que a campanha de Lula acusou de favorecer seu adversário por meio de "manipulação algorítmica".
A Meta negou a acusação, mas reconheceu que alguns anúncios da campanha de Lula haviam sido desativados por engano devido a erros técnicos.
Independentemente de quem vencer, o Brasil enfrentará um período posterior às eleições marcado por fortes tensões.
"Se a esquerda vencer, ganha quatro anos com um Congresso hostil e ameaças de impeachment", afirmou o analista político Thomas Traumann, referindo-se aos expressivos avanços legislativos da direita.
"Se a extrema direita vencer, será um governo de revanche contra o Supremo Tribunal Federal (STF)", instituição detestada pela direita após a condenação de Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado.
Se Bolsonaro vencer a eleição presidencial, "o Brasil corre um sério risco de ter um retrocesso em termos de estabilidade democrática", disse à AFP Cristina Vermelho, uma professora universitária que votou em Lula no Rio.
G.Aguado--ESF